Os cubanos passaram, nos últimos anos, a recorrer cada vez mais ao mercado ilegal para obter medicamentos. Em Havana, lojas clandestinas se multiplicaram pelas ruas, vendendo remédios, produtos de higiene e insumos hospitalares básicos trazidos do exterior, sem garantia de origem nem necessidade de receita. Para a maioria dos habitantes, esses pontos deixaram de ser uma alternativa esporádica e se tornaram a principal forma de acesso a tratamentos de saúde.
Eduardo Moré, 57, é aposentado e recebe pensão mensal de 1.500 pesos (cerca de R$ 15) por ser portador de HIV e ter insuficiência renal. Ele também sofre de hipertensão. Recebe gratuitamente do Estado os remédios para o HIV e mantém a hemodiálise três vezes por semana. Já os medicamentos para controlar a pressão e a retenção de líquidos — Captopril e Furosemida — passaram a ser comprados no mercado paralelo no ano passado. Cada um custa cerca de 500 pesos (R$ 5), dois terços de sua renda mensal. “Tenho que escolher entre comprar os medicamentos ou me alimentar. Os dois não dá”, afirma.
More, que não recebe a cesta básica desde o fim do ano passado, vive sozinho no bairro Centro Havana. Enfrenta cortes de energia de 15 a 20 horas por dia, o que compromete o abastecimento de água. Em 2023, precisou de uma transfusão de sangue após queda no nível de plaquetas. O banco de sangue do hospital não tinha bolsas do seu tipo. Familiares arrecadaram dinheiro para comprar uma bolsa no mercado paralelo, que custou 10 mil pesos (cerca de R$ 100). “Estão nos matando aos poucos”, desabafa.
Rudy Gonzales, 38, motorista de triciclo, levou uma facada no braço em julho de 2023. Procurou o Hospital Hermanos Ameijeiras, principal unidade do país, mas não foi atendido por falta de insumos. “Me mandaram comprar fios cirúrgicos e agulhas para sutura”, relata. “Antes era gratuito. Agora temos que pagar por tudo.”
O mercado paralelo de itens médicos ganhou força após a morte de Fidel Castro, em 2016, e se intensificou no primeiro mandato de Donald Trump. A reportagem visitou uma banca ilegal em Havana Velha. Uma aposentada de 64 anos importa remédios do Panamá, México e EUA para revender. Ela é hipertensa, diabética e cardíaca, e também precisa dos medicamentos.
Uma cartela de dipirona custa 700 pesos (R$ 7); a de paracetamol, 500 (R$ 5). O salário mínimo oficial é de 2.100 pesos por mês, o equivalente a cerca de US$ 4. Com a inflação, o poder de compra caiu drasticamente. Um médico cardiologista do Hospital Hermanos Ameijeiras disse que profissionais de saúde têm usado recursos próprios para comprar insumos. “É uma privatização forçada. Quem tem dinheiro sobrevive; quem não tem, só resta rezar”, lamenta.
Em fevereiro, o ministro da Saúde, José Ángel Portal Miranda, afirmou que as sanções dos EUA ameaçam a “segurança humana básica”. Segundo ele, cerca de 5 milhões de cubanos com doenças crônicas podem ter tratamentos comprometidos.

