Augusto Cury, 67, não se identifica com suas ocupações. Ele nega ser escritor de autoajuda, mesmo com seus livros nessas prateleiras. Também afirma não ser coach, mas viaja o mundo dando palestras e vende cursos online sobre como administrar sentimentos.

Médico de formação, ele se diz o psiquiatra mais lido do mundo e um produtor de conhecimento, estudado em pós-graduações. É autor da Teoria da Inteligência Multifocal, método para entender a mente humana não reconhecido por pesquisadores da área.

No início deste mês, filiou-se ao Avante e anunciou candidatura à Presidência. É a favor de reforma do Judiciário, chama de estúpido o discurso “bandido bom é bandido morto” e quer incentivar o empreendedorismo.

“Eu vejo o país radicalizado, que está sequestrado por duas famílias: a família Lula da Silva e a família Bolsonaro”, disse Cury em entrevista. “O que eu sou? Eu sou de centro. Sou mente capitalista e com um coração que cuida dos desvalidos.”

Ele ambiciona preparar o Brasil para o que chama de “grande tsunami da robótica e da inteligência artificial”, propondo a criação de clubes de empreendedorismo.

Nas eleições municipais de 2024, o discurso empreendedor foi encarnado, em São Paulo, pelo influenciador Pablo Marçal. Cury diz tê-lo conhecido há cerca de quatro meses. “Não me inspirei em Marçal, porque tenho uma política de 0% de ataque pessoal”, afirmou.

O pré-candidato diz que, após a crise do Banco Master, provocaria o Congresso para uma ampla reforma do Judiciário, com mandatos de até oito anos para ministros do STF. Na pesquisa Genial/Quaest mais recente, ele tem 2% das intenções de voto.

“Não vejo muita margem para crescimento no atual cenário. Cury é mais outsider do que foi Bolsonaro e não tem a mesma performance impactante de Marçal”, avaliou Pedro Lima, professor de ciência política da UFRJ.

Natural de Colina, a 400 km de São Paulo, Cury nasceu em família pobre. Ele lembra que não era bom aluno e que colegas debochavam de seu desejo de ser cientista. Na faculdade, teve uma crise depressiva e começou a escrever.

Morando no interior de São Paulo, é casado e pai de três filhas. Diz ser um ex-ateu que se tornou um “cristão sem fronteiras” e que respeita a laicidade do Estado.

Tornou-se um best-seller internacional, publicado em 70 países, com mais de 40 milhões de exemplares vendidos. Parte do sucesso veio do livro “O Vendedor de Sonhos: O Chamado”, de 2008, que critica o sistema capitalista. Há uma adaptação na Netflix dirigida por Jayme Monjardim.

“Essa história de bandido bom é bandido morto é uma ideia estúpida, não altruísta”, diz o psiquiatra. “O problema não é encarcerar, é encarcerar mal, não chegar antes do crime.”

Sua obra se baseia na Teoria da Inteligência Multifocal, criada por ele e sistematizada em livro de 1999. O estudo da teoria tornaria possível a gestão das emoções.

Em seu site, vende cursos sobre gestão da emoção por R$ 500. Publica vídeos no YouTube com dicas contra ansiedade e fez a série “Você É Insubstituível” para prevenir suicídios.

No fim do primeiro capítulo de seu livro, escreveu que a teoria traria soluções para o autismo. “Muitos casos de doenças psíquicas de difícil tratamento, inclusive de pacientes autistas, têm sido resolvidos”, escreveu.

José Roberto Marques, presidente do Instituto Brasileiro de Coaching (IBC), comemora a pré-candidatura e considera que a teoria tem embasamento científico.

A Folha pediu posicionamento à Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e não obteve retorno. A reportagem consultou cinco psiquiatras. Todos afirmaram que a teoria não tem embasamento científico e não a adotam na clínica.

“Não tem validação científica… É para vender livro”, disse Paulo Pavão, professor de psiquiatria da Uerj.

“Se essa teoria curasse o autismo, ele teria o Nobel de Medicina”, afirmou Rodrigo Martins Leite, médico do Instituto de Psiquiatria da USP.

Adriano Aguiar, doutor pela Universidade de Genebra, disse que em caso de crise suicida o paciente deve contatar seu médico, o CVV ou ir ao pronto-socorro. Ele diz não haver comprovação de que vídeos no YouTube previnam suicídios.

Wagner Gattaz, professor da USP, desconhece a teoria. Em mensagem, disse: “Que eu saiba o pré-candidato é um escritor profícuo, mas não é pesquisador nem cientista… criar uma teoria do nada é bastante arriscado.”

Cury rebate. Diz que alguns não estudaram adequadamente sua teoria, aplicada por milhares com comprovação científica. Compara-a à psicanálise e à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC).

“A Teoria da Inteligência Multifocal não é verdadeira como teoria”, afirma. “Em determinados aspectos, ela tem realmente uma validação.”

Quanto ao autismo, diz falar em “resolução” e tratamento, não “cura”. “Produzir conhecimento neste país que não valoriza o cientista é um parto”, conclui.

Marcelo Costa