Notícias Edição Nº 32

Cofundador da Fatal: patrocínio ao Corinthians busca ‘naturalizar’ conteúdo adulto

O cofundador e diretor de negócios da Atlas Technologies, Samuel Ongaratto, afirmou que o objetivo do patrocínio da Fatal Fans ao Corinthians é naturalizar a presença de uma plataforma de conteúdo adulto no cotidiano dos brasileiros. A empresa passou a estampar a marca no uniforme do clube paulista.

Cofundador da Fatal: patrocínio ao Corinthians busca ‘naturalizar’ conteúdo adulto
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“Quando você coloca a marca de um site adulto em um lugar de prestígio, ao lado de marcas que têm confiabilidade, essa confiabilidade passa para ela por osmose”, avaliou Ongaratto em entrevista. “É por isso que a gente fez esse investimento no Corinthians. Porque, se fizermos um cálculo do retorno deste investimento, não há conta que o justifique”, explicou.

A Fatal Fans é uma plataforma de assinatura de conteúdo adulto, com fotos e vídeos eróticos ou pornográficos, em modelo semelhante ao OnlyFans. A empresa retém 15% do valor de cada transação. Segundo a Atlas Technologies, o site reúne cerca de 30 mil criadores de conteúdo e recebe 7 milhões de visitas por mês. Já a Fatal Models, que reúne perfis de acompanhantes e já patrocinou o Vitória, bateu 30 milhões de acessos ao mês e deve faturar R$ 180 milhões em 2026.

O contrato de R$ 22 milhões firmado entre o Corinthians e a Fatal Fans até 2027 foi fechado em meio à crise financeira do clube, cuja dívida oscila entre R$ 2,4 bilhões e R$ 2,7 bilhões. O acordo deu fôlego ao caixa corintiano, mas gerou polêmica nacional sobre os limites da publicidade no esporte e a proteção de crianças e adolescentes.

Segundo Ongaratto, a estratégia de buscar credibilidade para a marca em campos e quadras pode fazer com que “pessoas que tinham vontade, mas não tinham coragem de acessar o site por medo de que ele colocasse um vírus no seu computador, tenham tranquilidade para acessá-lo”.

A preocupação com a exposição de crianças e adolescentes motivou representações ao Ministério Público de São Paulo. Também foram protocolados projetos de lei para proibir publicidade de conteúdo adulto em espaços públicos e eventos esportivos, de autoria da deputada estadual Maria Helou (PSOL) e das deputadas federais Sâmia Bonfim (PSOL-SP) e Tábata Amaral (PSD-SP).

“Eu me preocuparia mais com uma criança no estádio de futebol vendo o tiozão do lado xingando a mãe do juiz do que com uma propaganda sobre a qual eu acho improvável que ela pergunte alguma coisa”, sugeriu o empresário. “Este é um debate legítimo que deve ser feito pela sociedade, mas que às vezes vem carregado de preconceitos.”

Ongaratto afirmou que a Fatal Models implantou um sistema de aferição de idade para impedir o acesso de menores de 18 anos, mas que o recurso estava em funcionamento apenas em Maceió. Ele disse que a empresa foi a primeira a implementar o sistema, em março, quando a lei do ECA Digital entrou em vigor. Segundo ele, a ANPD informou que a fiscalização dos sites adultos só começaria em janeiro do próximo ano, o que levou a empresa a suspender temporariamente o sistema enquanto aperfeiçoava a ferramenta.

Já o conteúdo da Fatal Fans é fechado. “Para ter acesso, tem que pagar. E, na hora do pagamento, há não só a aferição de idade, mas identificação do usuário. E se o usuário for menor de 18, a compra é estornada”, garantiu. Ao ouvir da repórter que a página inicial da plataforma exibe imagens de forte apelo sexual, o empresário afirmou que a empresa procura retirar dali imagens “mais erotizadas” e comparou esse tipo de conteúdo ao encontrado em redes sociais.

O Corinthians informou, por meio de nota, que se certificou de que a Fatal Fans operava em conformidade com o ECA Digital e que seu conteúdo só poderia ser acessado mediante assinatura feita por maiores de idade sob verificação do CPF. O clube disse ainda que não haverá comunicação ativa convidando para o site nem publicidade “com conotação de objetificação ou erotização”.

Embora sustente que o objetivo do patrocínio seja reposicionar a imagem da marca, Ongaratto reconheceu que a repercussão tende a produzir efeitos comerciais. “Toda polêmica gera curiosidade.”

Sobre o consumo compulsivo de pornografia, o executivo afirmou que a empresa ainda não desenvolveu políticas específicas para usuários com comportamento problemático. Ele disse considerar o tema relevante, mas reconheceu que a discussão ainda “carece de mais debate dentro da empresa”. A companhia também não possui iniciativas estruturadas para financiar pesquisas sobre os impactos do consumo excessivo de conteúdo adulto.

O executivo disse que a empresa trabalha para reduzir o estigma em torno de profissionais do sexo. “Esse mercado historicamente foi colocado debaixo do tapete, tanto que muita gente ainda acha que ser acompanhante é crime, quando não é”, afirmou. “Há quem coloque a mulher que produz conteúdo adulto abaixo da mulher que escolheu como profissão jogar futebol, por exemplo. E não cabe essa comparação.”

Questionado se acharia natural se uma de suas filhas escolhesse ser acompanhante ou produtora de conteúdo adulto, Ongaratto respondeu: “Eu respeitaria a decisão delas e daria as melhores recomendações possíveis para que elas possam estar nessa profissão da maneira mais segura possível, com sucesso. Eu não estou aqui para estimulá-las a escolher essas profissões, mas também não estou aqui para desestimular.”