Insights Edição Nº 31

O papel das mulheres na Odisseia de Nolan

O poema épico “A Odisseia”, atribuído a Homero, narra a jornada do guerreiro grego Odisseu (Ulisses) para retornar ao seu reino, Ítaca, após anos lutando na Guerra de Troia. A viagem de volta dura uma década e é repleta de perigos. Uma nova adaptação da obra, dirigida por Christopher Nolan, chega aos cinemas neste mês com Matt Damon no papel principal. No Brasil, a estreia ocorre na quinta-feira, 16 de julho.

Apesar de o protagonista ser um homem, a história é fortemente moldada por figuras femininas. O sucesso de Odisseu em voltar para casa e retomar o trono depende das estratégias, conselhos e seduções de deusas, ninfas e mortais que ele encontra. Mais do que uma narrativa de heroísmo, a obra aborda temas como sexo, estratégia e poder.

O poema começa com Odisseu preso na ilha de Ogígia, onde vive há sete anos com a ninfa Calipso. Para ser libertado, é necessária uma assembleia dos deuses. A inércia do herói pode ser interpretada como um sinal de transtorno de estresse pós-traumático, mas isso não diminui o poder de sedução da ninfa. O próprio Odisseu admite que sua esposa, Penélope, não se compara à beleza de Calipso.

Durante a longa ausência do marido, Penélope não é uma esposa passiva. Com coragem e astúcia, ela resiste aos 108 pretendentes que ocupam o palácio. O estratagema de tecer uma mortalha para o sogro e desfazê-la todas as noites é um dos episódios mais marcantes. O sucesso dela em manter os pretendentes afastados impacta diretamente a capacidade de Odisseu de recuperar o trono.

A principal aliada de Odisseu entre os deuses é Atena, a deusa da sabedoria e da estratégia. Ela o ajuda desde a Guerra de Troia e organiza seu resgate quando ele chega exausto à terra dos feácios. Atena frequentemente assume a aparência de um homem, mostrando que, entre os mortais, o poder está nas mãos masculinas, mas são as mulheres que muitas vezes mudam o rumo dos acontecimentos.

Ao longo da viagem, Odisseu encontra figuras femininas míticas, como as sereias, cujo canto irresistível leva os homens à morte, e a feiticeira Circe, que transforma seus companheiros em porcos. Essas criaturas tanto atrapalham quanto ajudam o herói. A mensagem do poema é que esses seres não podem ser ignorados. Para vencer, Odisseu precisa ceder a elas, mas sem ir longe demais, colocando à prova sua determinação e moderação.

Os relatos de Odisseu sobre suas aventuras podem ser vistos como invenções para conquistar a confiança dos feácios. Nesse caso, ele não estaria enfrentando monstros reais, mas seus próprios demônios interiores. Sua astúcia e capacidade de mudar de identidade fazem dele um herói complexo e humano. Sua vulnerabilidade às seduções femininas é, ao mesmo tempo, sua maior força e sua maior fraqueza.