Notícias Edição Nº 32

Morte de menina em teste genético na China gera investigação

Um cientista chinês da Universidade de Jiao Tong de Xangai está sob investigação após relatos de que um teste de edição genética experimental causou a morte de uma menina de seis anos. A Escola de Medicina da instituição confirmou que o caso não foi mencionado em estudo publicado em revista científica.

Morte de menina em teste genético na China gera investigação
Foto: universidade xangai

A menina, identificada pelo pseudônimo “Mei”, morreu em março de 2025, cerca de uma semana depois de receber uma infusão espinal de bilhões de vírus modificados para atingir o cérebro. A informação é de uma investigação conjunta da revista Science e do Retraction Watch, plataforma que monitora retratações de artigos científicos. Os pais da criança disseram que ela teve uma reação imunológica ligada ao tratamento. A terapia experimental pretendia corrigir uma condição genética rara que atrasava o desenvolvimento cognitivo da menina.

O neurocientista Zilong Qiu, pesquisador principal, publicou um artigo sobre a terapia em animais na revista Nature, mas não citou o caso de Mei. Ele ainda não se manifestou publicamente. Em nota, a Escola de Medicina da Universidade Jiao Tong de Xangai afirmou que criou um grupo de trabalho para investigar o incidente. A instituição disse que se opõe a pesquisas que violem a ética científica e que tomará “medidas severas” conforme o resultado da apuração.

Sete especialistas em genética, virologia e bioética analisaram o estudo publicado na Nature e apontaram que Qiu minimizou os riscos da terapia ao explicá-la aos pais, ignorou alertas de testes em animais e seguiu com o tratamento mesmo com baixa chance de sucesso.

Terapia genética e riscos

A edição genética permite alterar o DNA de um organismo com precisão. A técnica mais conhecida, a CRISPR-Cas9, funciona como uma “tesoura molecular” e rendeu o Prêmio Nobel de Química em 2020. No caso de Mei, os pais pagaram mais de 800 mil dólares para financiar o experimento e, segundo o relatório, não foram informados adequadamente sobre os riscos. Documentos oficiais indicam que o hospital permitiu o tratamento sob uma regra que não exige aprovação de reguladores nacionais. Após a morte da criança, a unidade de saúde pagou uma multa a uma autoridade local, mas Qiu não foi punido publicamente.

Reputação científica da China

Qiu pretendia desenvolver a primeira terapia de edição genética do mundo voltada ao cérebro, reescrevendo o gene mutado nas células nervosas da menina para que ela produzisse uma proteína vital. A morte, que só agora veio a público, é mais um golpe nas ambições da China de se tornar uma potência em biotecnologia. Em 2018, o biofísico He Jiankui, conhecido como “Dr. Frankenstein chinês”, foi condenado a três anos de prisão por editar genes de embriões e gerar bebês com DNA modificado em segredo.

Em setembro, o Conselho de Estado da China publicou regras que proíbem a modificação de DNA em células reprodutivas humanas, como espermatozoides, óvulos e embriões. O líder chinês, Xi Jinping, definiu como meta que o país lidere a ciência e a tecnologia globalmente em 2049. O caso de Mei reacende o debate sobre a ética em pesquisas científicas no país.