Educação Edição Nº 26

Estou Viajando para a China — Devo Aprender Inglês?

Imagine que você acabou de reservar sua passagem para a China. Sua mala ainda não está pronta, mas sua cabeça já está — cheia de perguntas. O que devo comer? O que devo ver? E, bem no topo da lista: as pessoas vão me entender se eu falar inglês?

Estou Viajando para a China — Devo Aprender Inglês?
Foto: Estou Viajando para a China — Devo Aprender Inglês

É uma pergunta justa, e a resposta honesta é: depende. Depende de quanto inglês a pessoa comum na China realmente fala, do tipo de viagem que você está planejando e de exatamente para onde, dentro desse país enorme, você está indo. Vamos analisar cada um desses pontos, porque juntos eles vão te dizer não apenas se vale a pena revisar seu inglês antes de ir, mas quanto esforço colocar nisso.

Quanto inglês as pessoas na China realmente falam?

De fora, a China costuma ser imaginada como um país onde “ninguém fala inglês” ou, no extremo oposto, como um lugar onde, graças ao seu peso econômico global, todo mundo fala. A verdade está em algum ponto no meio, e os números confirmam isso.

De acordo com o EF English Proficiency Index 2025 — um dos rankings globais mais citados, construído a partir dos resultados de testes de milhões de adultos — a China obteve 464 pontos em uma escala de até 800, ficando firmemente na faixa de “proficiência baixa”. Para efeito de comparação, essa pontuação é parecida com a de outras grandes economias não falantes de inglês que também enfrentam dificuldade com a fluência no idioma, e fica visivelmente atrás de países nas faixas “moderada” ou “alta”. Ou seja, em nível nacional, a China não é um ambiente fácil em termos de inglês.

Mas uma média nacional esconde muitos detalhes. Dois padrões importam mais para quem viaja:

  • A idade faz uma diferença enorme. O inglês é matéria obrigatória nas escolas chinesas há décadas, então os chineses mais jovens — estudantes, jovens profissionais, funcionários de hotéis internacionais e de atrações modernas — têm muito mais chances de ter pelo menos um inglês básico de conversação do que pessoas com mais de 50 anos, muitas das quais tiveram pouco ou nenhum ensino de inglês na infância.
  • A fala é o ponto fraco. Na maioria dos países testados pela EF, falar costuma ser a habilidade mais difícil, e a China não é exceção. Mesmo pessoas que estudaram inglês por anos na escola, e que conseguem ler um cardápio ou uma placa razoavelmente bem, muitas vezes travam ou hesitam quando precisam realmente manter uma conversa falada. Por isso, você pode encontrar pessoas que entendem mais do que demonstram, mas que ficam tímidas para responder em voz alta.

Resumindo: não espere um inglês fluente e do dia a dia de estranhos na rua, mas também não presuma um silêncio total — especialmente vindo de pessoas mais jovens.

Depende do tipo de viagem que você está fazendo

O quanto essa diferença de idioma realmente afeta você depende muito do formato da sua viagem.

Excursão guiada em grupo. Se você está participando de um passeio organizado com um guia que fala inglês e cuida de hotéis, restaurantes e transporte, a barreira do idioma praticamente desaparece. Seu guia se torna a ponte entre você e todo mundo. Nesse cenário, aprender inglês não é urgente para a viagem em si — embora ainda seja útil para os momentos inevitáveis em que você se afasta do grupo.

Viagem independente pela cidade. Se você está planejando seu próprio roteiro em torno das grandes cidades — reservando seus próprios hotéis, pedindo sua própria comida, usando o transporte público por conta própria — sua experiência vai depender bastante de uma combinação de inglês básico, aplicativos de tradução e paciência. Funcionários mais jovens de hotéis, do pessoal de aeroporto e de trabalhadores em atrações turísticas conhecidas nas grandes cidades estão razoavelmente acostumados a lidar com visitantes estrangeiros e costumam ter um inglês funcional. Já as interações de rua (pequenos restaurantes, barracas de mercado, motoristas de táxi) são outra história — ali, o inglês é bem mais raro, e um aplicativo de tradução ou algumas frases decoradas em mandarim vão render muito mais do que um inglês fluente.

Viagem a negócios. Se você está indo para a China a trabalho — reuniões, conferências ou visitas corporativas —, o cenário muda novamente. Profissionais de grandes empresas internacionais, escritórios de ligação governamental e grandes eventos comerciais geralmente têm inglês suficiente para conduzir os negócios, ou suas reuniões contarão com um intérprete profissional. Ainda assim, a logística ao redor das reuniões — táxis, recepções de hotéis fora das grandes redes internacionais, refeições casuais — vai testar os mesmos limites de inglês que qualquer outro viajante enfrenta.

Mochilão fora da rota turística. Se o seu plano inclui cidades menores, paisagens rurais ou regiões remotas, o inglês se torna muito menos confiável, e um punhado de frases de sobrevivência em mandarim passa a ser genuinamente necessário, não apenas opcional. Esse é o cenário em que confiar só no inglês tem mais chances de te deixar na mão.

Estudar ou morar na China por um período prolongado. Se a sua “viagem” é na verdade um intercâmbio de um semestre ou uma estadia mais longa, o inglês vai ajudar você a se conectar com a comunidade de estudantes internacionais e com a equipe da sua instituição, mas o dia a dia vai acabar te empurrando a aprender pelo menos um mandarim funcional — o inglês te leva pelas primeiras semanas, não pela experiência toda.

Depende da cidade ou região que você vai visitar

O cenário do inglês na China muda drasticamente dependendo de para onde o seu roteiro leva.

Pequim e Xangai. Como as cidades mais conectadas internacionalmente da China, essas duas concentram, de longe, o maior número de visitantes estrangeiros, empresas multinacionais e estudantes internacionais. Os sistemas de metrô exibem e anunciam as estações em inglês, muitos restaurantes nos bairros centrais têm cardápios em inglês, e é muito mais provável encontrar alguém — especialmente entre os funcionários mais jovens — capaz de manter uma conversa básica em inglês. Isso não significa que todo mundo fala o idioma, mas as chances são claramente melhores aqui do que em quase qualquer outro lugar da China continental.

Guangzhou e Shenzhen. Também são importantes polos de negócios internacionais, especialmente para comércio e manufatura, mas com uma proporção um pouco menor de moradores fluentes em inglês em relação às suas enormes populações. Contatos de negócios aqui geralmente se sentem à vontade em inglês; já as interações casuais de rua, nem tanto.

Hong Kong (um caso à parte). Se a sua viagem incluir Hong Kong, a conta muda completamente. Como um antigo território britânico onde o inglês continua sendo um idioma cooficial ao lado do cantonês, Hong Kong tem um nível geral de inglês muito mais alto do que a China continental, e a maior parte da sinalização, dos cardápios e dos serviços é bilíngue.

Cidades menores e regiões rurais ou paisagísticas. Destinos como Zhangjiajie, Yangshuo, o interior de Guilin e outros pontos de natureza e cultura semelhantes estão cada vez mais populares justamente por serem menos turísticos — mas isso também significa que o inglês cai drasticamente. Guias locais em atrações famosas podem saber algumas frases decoradas, mas motoristas de táxi ou de aplicativo, donos de pequenas pousadas e vendedores de rua frequentemente não falam nada do idioma.

Cidades turísticas em ascensão. Cidades como Chengdu e Xi’an, que tiveram um boom recente de visitantes internacionais, em parte graças à ampliação das políticas de viagem sem necessidade de visto, estão investindo mais em infraestrutura voltada para o turista, incluindo sinalização em inglês e aplicativos bilíngues, embora ainda fiquem bem atrás de Pequim e Xangai.

Além do inglês: a realidade prática no dia a dia

Mesmo com um inglês razoável, vale conhecer algumas particularidades práticas de viajar pela China. Aplicativos ocidentais como Google Maps, Gmail e a maioria das redes sociais estrangeiras são bloqueados, então a maioria dos viajantes baixa uma VPN e passa a usar aplicativos de navegação locais, que vêm ganhando interfaces multilíngues em atualizações recentes. Motoristas de táxi de rua raramente falam inglês, o que é um dos motivos pelos quais os aplicativos de transporte que permitem digitar o destino são tão populares entre os visitantes estrangeiros. Os aplicativos de pagamento móvel dominam as transações do dia a dia, e vários deles já contam com recursos de tradução de cardápios e placas, capazes de escanear e traduzir o texto em tempo real — algo genuinamente útil quando o inglês falha e o seu mandarim ainda não decolou.

Então, você deveria aprender inglês antes de viajar para a China?

Se o seu objetivo é simplesmente se virar como turista, a resposta é: ajuda, mas não é a solução completa. Um inglês sólido e prático vai te levar mais longe com funcionários mais jovens, nas grandes cidades, em excursões guiadas e em contextos de negócios — e é uma habilidade que compensa muito além dessa viagem específica, em qualquer país onde o inglês funcione como idioma comum entre turistas.

Como a fala costuma ser o ponto mais frágil de quem aprendeu inglês sozinho ou só na escola, contar com um professor particular de inglês nas semanas anteriores à viagem é uma das formas mais rápidas de ganhar confiança justamente nessa habilidade.

Mas o inglês sozinho tem limites na China que talvez não tenha em outros lugares. Se o seu roteiro incluir cidades menores, áreas rurais ou interações cotidianas de rua, nenhuma quantidade de inglês vai fechar essa lacuna — só um punhado de frases básicas em mandarim, um aplicativo de tradução confiável e um pouco de paciência vão dar conta disso.

A preparação mais inteligente, então, não é escolher entre inglês e mandarim — é combinar os dois: revisar seu inglês prático e de conversação para se comunicar com confiança onde ele for falado, e somar a isso uma pequena lista de frases essenciais em mandarim para os lugares onde ele não for. Faça as duas coisas, e você vai perceber que a barreira do idioma, em qualquer parte da China em que você esteja, se torna um pequeno inconveniente, não um obstáculo de verdade.

Imagem: Magnific